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O MITO DA SAÚDE MENTAL- O MITO MODERNO

Salve galera! Compartilho com vocês um resumo que fiz para apresentar uma palestra na UERJ sobre o filme "UM ESTRANHO NO NINHO", quem não viu, veja, pois é um filmaço!

A minha parte coube falar sobre a ética da psiquiatria e o "Mito da Saúde Mental" nos tempos modernos, esta que veio substituir os antigos Mitos Religiosos. Para isso utilizei a bibliografia do grande psiquiatra Thomas Szasz, principalmente o livro “Ideologia e doença mental". Sem esquecer, que também tive a excelente ajuda (conforme imagem abaixo) dos Mestres Jung e Nise da Silveira. Como o assunto é bem interessante resolvi postar por aqui.



Obs: Um dos slides que utilizei na apresentação ;-)

       A psiquiatria pode ser vista como uma “empresa moral e politica”, que usa argumentos técnicos e  científicos para justificar seus “procedimentos". Surgiu devido a uma alta demanda da necessidade  humana de encontrar um “equilíbrio”, a sociedade ansiava por se “livrar” de suas responsabilidades morais, buscando “alguma” salvação ou  melhor,  cura de seus problemas emocionais e psíquicos. Sendo assim, os profissionais da saúde mental surgiram com a missão de “patologizar” problemas humanos e de resolver estas questões, tomando-se responsáveis pela resolução e “equilíbrio” da sociedade.

          Após as duas grandes guerras, a psiquiatria cresceu rapidamente, e com isso o número de doenças mentais cresceram vertiginosamente, o que antes era “normal” hoje se tornou patológico e quase todos podem ser considerados doentes pela vertente em questão, com exceção dos que diagnosticam. Antes de a psiquiatria existir, o discurso da tirania que estigmatizava e oprimia o sujeito possuía a “roupagem” religiosa, agora a “vestimenta” é científica.

“A ideologia psiquiátrica moderna é uma adaptação - para uma era científica - da ideologia tradicional da teologia cristã. Em vez de nascer para o pecado, o homem nasce para a doença. Em vez de a vida ser um vale de lágrimas, é um vale de doenças. E, como antigamente em sua jornada do' berço ao  túmulo o homem era guiado pelo' sacerdote, da mesma forma  hoje é guiado pelo médico. Em resumo, enquanto que na Idade da Fé a ideologia era a cristã, a tecnologia era clerical e o perito o sacerdote, na Idade da Loucura a ideologia é médica, a tecnologia é clínica, e o perito é o psiquiatra.”(Szasz, 1980, p.12)

   A psiquiatria tem como falha moral o discurso de neutralidade terapêutica, não admitindo ser amigo ou inimigo do paciente, utilizando da roupagem médica, colocando-se superior devido a seu saber, visto que pode “curar” as mazelas da psique humana- Não importa se os métodos  são agressivos ou não, visto que  os tratamentos para a doença mental  é o único meio de “mudar” o que está errado com o sujeito, o mesmo não tem opção de escolha, não aceitando por “bem” irá ser levado contra sua vontade pelo “poder” que o especialista tem, e essa postura de intervenção vai contra a ética da profissão que visa trazer bem estar e respeitar o outro.

  Há uma transformação  e desmoralização sobre as questões éticas: Por exemplo, no passado,  o julgamento de valores e problemas pertenciam à esfera do direito e da moral. Hoje, tais problemas precisam ser “consultados” na área médica, antes de irem para o que já era de praxe.  O especialista da mente tem o poder de julgar se determinado comportamento pode ser considerado doentio, criminal, legal ou sadio. Ou seja, o que antes era um crime cometido por um desvio de valor (desvio ético), hoje é considerado como patologia. 

   Há uma tendência cada vez maior dos cientistas comportamentais e seus seguidores  pregarem que “Os criminosos são doentes...” . Se os atos ilegais dos criminosos são sintomas de doenças mentais, então os atos dos executores da lei também podem ser considerados na mesma esfera dos criminosos, vide a pena de morte, por exemplo. Dois pesos e duas medidas? Continuando o raciocínio desse pensamento: qualquer cidadão que infringiu alguma lei é considerado tecnicamente um criminoso, logo, uma pessoa que sonega imposto, uma mulher que já fez aborto, médico que executou tal procedimento, quem já ultrapassou o sinal vermelho, utilizou algum tipo de droga ilegal ou bebeu e dirigiu, entre muitos outros exemplos - Segundo a atual tendência psiquiátrica, podem ser considerados doentes mentais, todos sem exceção.


 O Mito da doença Mental


 A doença mental funciona como o mito dos tempos modernos, sendo herdeira dos mitos religiosos da humanidade. A função desses sistemas de crenças era de agir como tranquilizadores sociais e psicológicos, alimentando a esperança de que o domínio de certos problemas poderiam ser resolvidos ou respondidos na esfera mágica e simbólica.

O conceito de doença mental serve para obscurecer fatos cotidianos de que a vida, para maioria das pessoas, é um fardo e uma luta contínua não pela sobrevivência biológica somente, mas e principalmente, por um “lugar ao sol” , “paz de espírito”. Uma vez satisfeitas as necessidades do corpo o homem se confronta com o problema do significado pessoal: “ Quem eu sou? O que devo fazer de mim mesmo?”A adesão do mito da saúde mental permite as pessoas evitar tal confronto com elas mesmas.

Chamamos as pessoas de doentes quando o funcionamento de seu corpo viola certas normas anatômicas e fisiológicas, de forma análoga, chamamos de mentalmente insanas as pessoas cuja conduta pessoal viola certas normas éticas e sociais. A doença mental nos encoraja a acreditar pela sua logica, que a interação social seria harmoniosa, satisfatória e de base segura para uma vida saudável, se não existisse essas influencias desagregadoras das doenças mentais. A Felicidade humana universal, pelo menos nessa forma de pensar, é algo utópico. A felicidade pode ser atingida quando o sujeito for capaz de se confrontar francamente com seus conflitos, em vez de buscar soluções para mascará-los.  Nossos  adversários não são os demônios, feiticeiras, destino ou a doença mental, não temos inimigos dos quais possamos lutar, exorcizar ou dissipar pela “cura”, o que temos sim são problemas existenciais que podem ser biológicos, políticos, econômicos ou sócio-psicológicos. A doença mental é um mito cuja função é disfarçar e assim, tornar mais aceitável a amarga pílula dos conflitos morais das relações humanas.

   Nem toda desordem de pensamentos e comportamentos são doenças no cérebro (muitas destas classificadas como patologia mental o fator causal  é desconhecido); porém para a medicina isso é uma questão de tempo, psiquiatras alegam que essas “doenças” são originadas por defeitos neurológicos, AINDA não descobertos, justificam estas “patologias” cerebrais atribuindo a desordens aos processos psicoquimicos, por isso a medicalização como meio de “ajudar” nesses processos, sendo que até hoje não há registro de cura.  Muitos dos atuais profissionais mantêm essa visão e desconsideram “olhar para o sujeito”, ou seja, considerar que essas desordens possam ser consequências de necessidades pessoais conflituosas, problemas sociais entre muitos fatores subjetivos, ou seja, problemas existenciais do individuo.

   Na prática médica, quando falamos de distúrbios físicos, pensamos em sinais (por exemplo, a febre) ou sintomas (por exemplo, a dor). Falamos de sintomas mentais, por outro lado, quando nos referimos às comunicações do paciente consigo próprio, com os outros, com o mundo que o rodeia. O paciente pode afirmar que é Napoleão, ou que está sendo perseguido pelos comunistas; estes seriam considerados sintomas mentais somente se observador não acreditar que o paciente seja Napoleão, ou que esteja sendo perseguido pelos comunistas. Isso torna evidente que a afirmação de que "X é um sintoma mental" implica fazer um julgamento que traz a comparação oculta entre as ideias, conceitos ou crenças do paciente e as do observador, como da sociedade  que vivem. A noção de sintoma mental está, desse modo, intrincadamente  ligada ao contexto social e particularmente ético no qual é elaborada,' assim como a noção de sintoma físico está ligada a um contexto anatômico e genético.

Concluindo: para quem considera os sintomas mentais como sinais de doença cerebral, o conceito de doença mental é desnecessário e enganador.

   O conceito de enfermidade, seja física ou mental, implica desvio de alguma norma claramente definida. No caso de enfermidade física, a norma é a integridade estrutural e funcional do corpo humano. Assim, apesar da conveniência da saúde física como tal ser um valor ético, a questão o que  a saúde pode ser respondida em termos anatômicos e fisiológicos. Qual é a norma para que tal desvio seja considerado doença mental? A norma atual à qual o  desvio é comparado é um padrão psicossocial e ético. Contudo, o medicamento é procurado em termos de medidas médicas que - se espera e se supõe - são livres da vasta gama de valores éticos.

   Tendo identificado as normas usadas para medir os desvios nos casos de perturbação mental, voltemo-nos para a questão: quem define as normas e os consequentes desvios? Duas respostas básicas podem ser oferecidas: primeiro, pode ser a própria pessoa - isto é, o paciente - quem decide se se desvia de uma norma; por exemplo, um artista pode acreditar que sofre de uma inibição para o trabalho e pode corroborar essa conclusão procurando, ele .próprio, a  ajuda de um psicoterapeuta. Ou pode ser outra pessoa, que não o "paciente", quem decide se este é perturbado - por exemplo, os parentes, médicos, autoridades etc, quem dá o veredito final é o psiquiatra .

   O psiquiatra desse modo não pode, e não consegue ficar alheio à pessoa que observa como pode fazer e faz o patologista. O psiquiatra esta comprometido com um quadro daquilo que considera a realidade, o que pensa e com o que a sociedade considera real- observa e julga o comportamento do paciente à luz dessas crenças. Desse modo, se houver um conflito de valores entre observador e observado, psiquiatra e paciente, haverá uma postura de diagnosticar essa diferença como sintoma de uma doença.

Os conflitos de valores são a principal fonte de conflitos nas relações humanas, em todos  os níveis - da mãe à criança, do marido à esposa, de nação a nação - são carregadas de depressão, tensão e desarmonia, sendo isso  algo óbvio, mas levando essa realidade dentro do pensamento médico essas diferenças são enquadradas como doenças mentais . Em nossas teorias científicas de comportamento, falhamos em aceitar o simples fato de que as relações humanas são inerentemente carregadas de dificuldades e que torná-las, mesmo relativamente, harmoniosas requer muita paciência e trabalho árduo.  Em vez de chamar atenção para necessidades, aspirações e valores humanos conflitantes, o conceito de doença mental produz uma "coisa" moral e impessoal -- uma "doença"-- como uma explicação para problemas existenciais.

Postagem original : http://danielelopespsi.blogspot.com/2013/08/o-mito-da-saude-mental-o-mito-moderno.html


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