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Nise da Silveira

Salve galera !

Confesso que ao ser convidada para escrever sobre essa grande mulher, a qual admiro profundamente, fiquei receosa, pois seu legado é tão incrível que em poucos parágrafos não sei se conseguirei passar um pouco da imensidão que ela representa. Quem foi e qual a importância da Drª Nise da Silveira? Esse breve texto não conseguirá abranger a dimensão de sua belíssima trajetória de vida, mas abrirá um horizonte para os novos admiradores dessa guerreira irem em busca de mais informações sobre suas obras.

Uma das maiores brasileiras de todos os tempos, reconhecida internacionalmente e, paradoxalmente, tão desconhecida do grande público de seu país, Nise iluminou muitas vidas que viviam encarceradas na escuridão da psique, como dos reformatórios psiquiátricos do inicio do século XX.


Nise da Silveira nasceu em Maceió em 15 de fevereiro de 1905. Graduou-se em Medicina em 1926, sendo a única mulher a se graduar entre os 156 alunos. Essa pequena e, aparentemente, “frágil” mulher era uma guerreira que ultrapassou todos os limites de seu tempo, pois rompeu com o paradigma vigente da psiquiatria de sua época ao humanizar o tratamento da loucura. Em uma realidade em que o sistema médico enxergava os loucos como “coisas”, visto que a própria sociedade os marginalizavam a total indigência, sendo encarcerados em asilos psiquiátricos, completamente esquecidos e largados a própria sorte, sem direitos e sem nenhum tipo de cidadania, sofrendo “torturas” (eletrochoques, lobotomia, choque de insulina etc.) que na época era visto como tratamento para os transtornos mentais.


A chegada de Nise no Centro Psiquiátrico Pedro II foi bombástica, visto que a médica recusou-se a usar os métodos de tratamento usuais vigente da psiquiatria clássica, devido a sua postura “abusiva”. Por este motivo foi deslocada para um setor abandonado e ignorado pelos médicos do hospital, a terapia ocupacional. Sendo que de terapêutica não tinha absolutamente nada, quando muito dos doentes eram tratados como serviçais. Nise, neste momento, deu o seu pontapé inicial para a revolução no tratamento da loucura que levou seu nome para os quatro cantos do mundo.

O sombrio abandono e silêncio das alas psiquiátricas foram substituídos pela valorização da convivência e respeito ao ser humano fragilizado, que vivia em condições alarmantes. Nise iniciou esse processo, orientando todos os profissionais que trabalhavam ao seu redor sobre a importância do contato amoroso com estas pessoas especiais, que passavam por dois grandes sofrimentos: a ruptura com a realidade e a total discriminação, tanto no meio social como no hospitalar. Ela mudou completamente a concepção de acolhimento aos doentes, abriu ateliês para diversos tipos de atividades artísticas (teatro, pintura, música, modelagem etc.), como meio de trabalhar as manifestações do inconsciente de seus queridos internos.


   Assim, foi fundando oficialmente a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação – STOR (1946); como consequência das obras que emergiam do inconsciente para o plano das artes, nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952. Por esse maravilhoso trabalho, Nise ganhou notoriedade internacional, atraindo também a atenção do grande Carl Gustav Jung, o criador da Psicologia Analítica. Nise viu nas teorias do Jung, principalmente na teoria sobre o inconsciente coletivo, uma fonte preciosa para compreensão das obras vivenciais dos pacientes, visto que nos primeiros anos de funcionamento da STOR, ela ficou muito admirada com a qualidade plástica das pinturas que representavam mandalas. O que mais a intrigava, era o fato destes pacientes de estados psicóticos grave, serem de origem muito humilde e sem nenhum tipo de conhecimento ou acesso às obras de arte.


   Sabendo pelas obras de Jung que as mandalas eram símbolos de integração psíquica, diante de tal assombro pelos “desenhos” criados pelos seus internos, ela escreveu para o psiquiatra suíço enviando algumas fotos das pinturas, quando o mesmo confirmou que estas eram de fato mandalas que representavam manifestações das forças instintivas de autocura, presentes nas camadas mais profundas da psique, e no caso, procuravam compensar o estado de dissociação típico da esquizofrenia.


   Após esse primeiro contato, Nise fez vários estudos referentes ao seu campo de atuação com os internos, aprofundando suas pesquisas com o ajuda do mestre Jung. Em 1957, Nise encontrou o criador da Psicologia Analítica pessoalmente, quando inaugurou uma exposição de pinturas do museu de imagens do inconsciente, no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique.

Nise escreveu também alguns livros de caráter científico, mas demorou muitos anos para obter o merecido reconhecimento da comunidade acadêmica brasileira pelo valor de suas obras.


   Este ser humano iluminado deixou este plano em 1999, mas sua vida e obra deixaram um imenso legado, sendo um fantástico exemplo para os profissionais da área, tal como para a humanidade. Salve a Drª Nise da Silveira por iluminar e continuar iluminando tantas vidas!


Daniele Roses ( Daniele Lopes Silva)

Postado originalmente:http://danielelopespsi.blogspot.com/2013/08/a-grande-mestra-dr-nise-da-silveira



Referência:

SILVEIRA, Nise da, 1905-1999. Senhora das imagens internas - Escritos dispersos de Nise da Silveira. Editado por Cadernos da Biblioteca Nacional, 5, BN -2008, RJ.


SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.


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