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Como reconhecer um Mestre?

Salve Galera! Ao longo da minha vida encontrei alguns Mestres(as), não falo de pessoas portadoras de um diploma de mestrado , estes são por mérito, devido a dedicação em anos de estudos na área acadêmica ou mesmo mestres de ordens ou religiões , que da mesma forma, se dedicaram por anos estudando teorias e práticas de seus "dogmas"; quero falar dos mestres que não portam diplomas ou que não são de um "altíssimo" grau de alguma ordem e afins, mas falo de pessoas "normais" que encontramos no nosso dia-a-dia, seja na porta de um bar ou varrendo as ruas ou palestrando por aí.

   Como identificá-los ? São pessoas que nos brindam com um conhecimento de alma e/ou de experiência de vida, independente de idade, formação, classe social ou religião, estes mestres surgem  "repentinamente" em momentos de necessidade "nossa" daquela "escuta". Já tive a benção de encontrar alguns que apareceram do nada em alguns momentos em que eu precisava, consciente ou inconscientemente,  ouvir aquele chamado ou aprendizado,  e como foi proveitoso conseguir "enxergar" esse feedback do universo através deles.

Como assim? Você pode estar se questionando...    Bem, eu acredito que a "verdadeira" sabedoria reside em todos nós, porém não manifestada constantemente, e em alguns momentos, ela surge como um lampejo ou algo do tipo.  Alguma vez você já pode ter sido um mestre para alguém, já parou para pensar nisso? Um conselho dado ou um papo que você teve com alguém e que tenha causado uma "revolução"(no bom sentido) na psique da pessoa. Provavelmente,  já o procuraram para lhe dizer que aquele papo que tiveram, foi fundamental para a pessoa conseguir resolver determinado problema ou algo do tipo; mas você, no seu momento "de mestre", não tinha consciência disso, ou seja, jamais imaginou que algo que você dissesse, poderia  ter ajudado tanto a pessoa.

    Em outros casos,  alguns são mestres formados pela escola da vida, pessoas que muitas vezes mal sabem falar ou escrever, mas que são capazes de nos brindar com ensinamentos que não aprendemos com os mestres por mérito, os chamo de Mestres de Alma. Sabe aquela pessoa que o faz ficar horas papeando sobre as coisas da vida, ensinando a "simplicidade" do viver, ou que lhe mostra um outro ângulo de enxergar as coisas e que lhe causa uma "revolução psicológica". Eu tive a honra de conhecer alguns desse "naipe", uns já se foram (que um dia eu os reencontre quando eu partir), enquanto outros continuam, felizmente, por aqui.

   Se você ainda não encontrou algum mestre de vida ou alma, acredito que não tenha prestado atenção, muitas vezes eles estão ao nosso lado no cotidiano ou surgem do nada, mas não o(a) "escutamos" devido a um pré-conceito inconsciente ou "cegueira momentânea", visto que criaram um "arquétipo" de mestres com perfis tipo Gandalf (super-poderes) ou  portadores de certificado ou algo do gênero. Verdadeiros Mestres não se reconhecem como tal, humildade é bem presente nesses sujeitos.

   Uma vez conversando com um amigo sobre espiritualidade, este exaltava o fato de ter conhecido um mestre espiritual que é famoso no meio, como se a pessoa fosse um "super-homem", perfeito, o cara com todas as respostas para as suas dúvidas, e que se reconhece como a pessoa que vai "libertar" os demais, pois ser um super mestre. E papeando eu disse, "de fato fulano tem 'norrau' no meio e merecidamente, mas ainda assim é humano como todos os outros, ou seja, também tem defeitos logo, não é essa perfeição humana que aparenta ser", e dei um toque para ele prestar atenção na postura do "mestre" em relação às práticas dos seus ensinamentos no seu dia-a-dia, na vida real.


 

   Na minha caminhada conheci muitos mestres com "norrau", mas sem a sabedoria de praticar na vida real "matrix" o que, notavelmente, dominavam teoricamente; ou melhor dizendo, a postura da pessoa era  "pregar" algo, mas não praticá-la de fato ("mascara" de mestre, mas sem "alma"mestre).


Enfim, aprendi e aprendo com todos os mestres (portadores de diplomas ou graus) e os portadores de sabedoria de vida, declaro que também conheci  mestres com todas estas qualidades citadas em um único sujeito; e ouso a dizer, nenhum foi melhor que o outro, todos tiveram e tem a mesma importância no meu caminhar, pois com eles aprendi muita coisa boa para a minha existência, seja aprender a como "não ser" como "a querer ser"; trouxeram a consciência de buscar o meu "mestre" interno , este que me intui em momentos especiais.

      Sendo bem sincera, se eu fosse colocar na ponta do lápis quem mais me ensinou a "não ser" foram alguns que traziam a eloquência teórica com o "certificado"  - Tudo foi e ainda  é  um constante aprendizado, foi enriquecedor conhecer todos e sou grata ao universo por isso, pois sem estes variados tipos de mestres, eu não seria quem hoje "estou".

      Bem , diante de tal post, eu os brindo com um artigo emocionante de um médico oncologista, que há alguns anos eu tive a honra de ler e até hoje me comove. Garanto que não vão se arrepender.Boa Reflexão!

Daniele Roses


Artigo do Dr. Rogério Brandão

Médico oncologista clinico

RC Recife Boa Vista D4500 - Cremepe 5758


Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda vivencia e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os

dramas vivenciados pelos meus pacientes. Dizem que a dor é quem ensina a gemer.Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro,

nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.


Um dia, um anjo passou por mim...

No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem como suas maneiras simples e diretas de ver o mundo,

sem meias verdades.


Nós médicos somos treinados para nos sentirmos "deuses". Só que não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além.

Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos

impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer nossos limites!


Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria.Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.


Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim. Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames,

manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia.


Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e  determinação. Ela entregava o bracinho à enfermeira, e com uma lágrima nos olhos dizia:

faça tia, é preciso para eu ficar boa. Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.


Meu anjo respondeu:

- Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!

Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:

- E o que morte representa para você, minha querida?

- Olha tio, quando agente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?

(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)


- É isso mesmo, e então?

- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?

- É isso mesmo querida, você é muito esperta!

- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!

Fiquei "entupigaitado". Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou,com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado,sem ação.


- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.

Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço,perguntei ao meu anjo: - E o que saudade significa para você, minha querida?

- Não sabe não tio? Saudade é o amor que fica!


Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica! Um anjo passou por mim...

Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.


Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. 

Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e

carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.

Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo "meu anjo, que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.

Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela ajuda que me destes.


Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.

Rogério Brandão

Publicado originalmente: http://danielelopespsi.blogspot.com/2013/08/como-reconhecer-um-mestre.html



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