Buscar

Análise sobre o preconceito

Salve galera!

Há algum tempo vejo posts que se tornam virais no facebook, várias pessoas compartilhando e acreditando que estão ajudando a combater o preconceito, mas que na verdade estão propagando-o cada vez mais, de uma forma “maquiada” ou  inconsciente.

Segue o post  repleto de “boa intenção”:


ais posts não se limitam a cor, já vi a propagação do “orgulho” em ter amigos gays ou deficientes ou índios.


Antes de iniciar o meu ponto de vista, segue a definição de orgulho pelo dicionário Michaelis:http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=orgulho

or.gu.lho -sm (cat urgoll, do germ) 1 Conceito muito elevado que alguém faz de si mesmo; altivez, brio. 2 Amor-próprio exagerado. 3 Empáfia, bazófia, soberba. 4 Ufania. 5 Aquilo de que alguém pode orgulhar-se: O bom filho é o orgulho de seus pais.


A frase " Eu tenho orgulho de ter amigos..." é algo excludente,  no sentido de excluir um determinado grupo da totalidade a que ele pertence (raça humana) por sua "diferença" e quer dizer de fato, “Apesar de ser negro, tenho orgulho de tê-lo como amigo.” Outra interpretação para este tipo de post é queo sujeito se orgulha da sua própria benevolência por ser amigo de pessoas diferentes, essa diferença traz uma ideia subentendida de inferioridade.  Antes de ter a “boa intenção” precisa-se interpretar muito bem o que está sendo propagado nas redes sociais, afinal, como diz um antigo ditado popular “De boa intenção o inferno está cheio!”.


Eu, sinceramente, me questiono se há um erro na interpretação de texto pelas pessoas que compartilharam esse tipo de post, devido a uma má educação escolar, em que o sujeito aprendeu a ler e escrever , mas não desenvolveu adequadamente sua função cognitiva para interpretação de textos ou se é um preconceito inconsciente da pessoa - ela é preconceituosa, mas não se reconhece como tal.


Já me deparei com muitos preconceituosos inconscientes e sempre que os questiono sobre tal assunto, negam veementes e dão justificativas para confirmar seus argumentos. Vamos a um exemplo bem comum em relação aos gays, quando me deparo com discursos de não preconceito, sempre os testo com o seguinte questionamento: “Se seu filho fosse gay como você reagiria?”

E, em muitos casos, a resposta é emocionalmente negativa, logo, discurso anterior de “não preconceito” cai por terra. Isso é apenas um exemplo de muitos casos de preconceito velado.


Reconhecer que tem preconceito de algo é o primeiro passo psíquico para combatê-lo ou ao menos amenizá-lo; o segundo passo, é se colocar no lugar do “diferente”. Um exemplo que eu sempre uso, continuando o exemplo acima sobre os gays, é de o sujeito se imaginar em uma realidade em que a sociedade impõem como padrão único e  ideal a homossexualidade, mas que a pessoa em questão deseja e sente-se atraído exclusivamente pelo sexo oposto, peço para se imaginar vivenciando todo o preconceito e perseguição que sofreria nessa realidade, tal como os gays sofrem em nossa sociedade. Ter que se portar como a maioria, mesmo sem ter prazer ou gostar, para não ser perseguido e humilhado.Um excelente exercício esse o de se colocar no lugar dos outros!


Por falar em exercício, descobri há pouco tempo o documentário excelente chamado“Olhos azuis”, que é sobre preconceito:  No documentário intitulado "Olhos Azuis", a professora estadunidense Jane Elliott tenta propagar a podridão que é possuir preconceito assim tentando realizar a transformação do sonho de Martin Luther King, em realidade. Jane abala a estrutura de nosso psicológico ao colocar pessoas de um grupo controlado para sentirem na pele o que as minorias sentem todos os dias de suas vidas, produto desse meio social que dilacera as minorias e as põem como inferiores. As implicações são fantásticas...”


https://www.youtube.com/watch?v=Tnrh7KRMiU8


Devemos compreender de uma maneira bem simples, que o preconceito é algo existente no ser humano devido a fatores históricos e psicossociais. O fato de um sujeito ver algo como “diferente”, daquilo que ele aprendeu em sua comunidade a classificar como “padrão”, sendo essa diferença causadora de um “mal estar” emocional e/ou psíquico, qualifica-se,  também, como preconceito - as pessoas, geralmente, pensam que o preconceito se manifesta somente em casos de violência verbal ou física .


Segue trecho de um excelente artigo científico sobre o estudo do preconceito:

Um Estudo do Preconceito na Perspectiva das Representações Sociais: Análise da Influência de um Discurso Justificador da Discriminação no Preconceito Racial

“Recentemente, Martinez e Camino (2000) constataram que estudantes universitários, ao classificarem seu grau de preconceito em uma escala de dez pontos, consideram que, em média, seu preconceito é de apenas 3,3 pontos, enquanto o grau médio de racismo da sociedade brasileira seria igual a 7,8 pontos. Essa mesma contradição também foi verificada em uma investigação realizada por Camino e colaboradores (2001), levando esses autores a concluir que o discurso ideológico que organiza a representação das relações raciais no Brasil descreve uma dissociação cognitiva cuja característica central é o fato das pessoas negarem que são preconceituosas atribuindo a responsabilidade do preconceito a uma abstração: a sociedade brasileira.Com isso o racismo à brasileira (Silva, 1995) cumpre seu papel ideológico mascarando as práticas discriminatórias. Como afirma Billig (1991), o sucesso de uma ideologia está relacionado aos discursos cotidianos (ou às teorias de senso comum na ótica de Moscovici, 1976) que procura justificar empiricamente o seu próprio sucesso. Nesse sentido, a ênfase na norma anti-racista poderia levar, em certar condições, à justificativa do próprio preconceito (Camino & cols., 2001).”

Link:http://www.scielo.br/pdf/%0D/prc/v16n1/16801.pdf


Estudo bem interessante, a parte sublinhada eu fiz questão de ressaltar para levantar algo que é bem reconhecida na Psicologia Analítica,tendemos a projetar no outro algo que reprimimos.

Na pesquisa em questão , muitos não reconhecem o seu preconceito e apontam para o "outro" , no caso a sociedade brasileira.


O mestre JUNG, em uma de suas grandes descobertas , ressaltou a importância de conhecermos a nossa sombra e o que seria a sombra? Para ele , um dos aspectos da sombra dentre muitos, são os defeitos ou as qualidades que reprimimos ou recalcamos no inconsciente;  o que NÃO enxergamos em nós vemos no outro.  Sendo mais clara,  a nossa sombra se "reconhece" no outro quando algo nessa outra pessoa nos incomoda emocionalmente , devemos prestar atenção do porquê desse  incômodo -"Quando apontamos com raiva o dedo indicador acusando o outro, tem outros três nos apontando."Explicação bem simples, reconheço , pois este assunto é bem mais complexo, quem sabe no futuro eu redija algo mais aprofundado sobre isso.


"O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros" (C. G. Jung)." 


Outro estudo sobre preconceito :http://www.scielo.br/pdf/%0D/epsic/v9n3/a02v09n3


Sem mais... Desejo uma boa reflexão!


Postado originalmente no outro blog: http://danielelopespsi.blogspot.com/2013/08/analise-sobre-preconceito.html

©2020.  Psicologia e outras terapias All rights reserved.